Aprenda a confiar no que sente

sentido

 

Nesta semana, uma paciente que está saindo da adolescência me disse que não sabia se estava feliz com sua escolha acadêmica. Ela explicou que, à medida que os semestres foram avançando, notou que havia disciplinas em que ela teria que usar mais a criatividade, seja através da construção de textos, seja por meio de exposição de ideias novas. Perguntei como ela se sentia quando era solicitada a fazer esse tipo de atividade, a qual descreveu angustiante, dado o “branco” que dominava sua mente. Ela respondeu que não sabia o que fazer, tampouco o que dizer.

O questionamento socrático foi levando-a a perceber que o que verdadeiramente a incomodava era ter que deixar de “fazer” coisas delimitadas (atividades que tinha uma estrutura definida), para aventurar-se num mundo de possibilidades desconhecidas. Ao acontecer isso com aqueles que estão habituados a terem sempre uma determinada “tarefa” a ser cumprida, eles costumam sentir grande angústia, conforme relatado por ela mesma.

Quando ocorre esse tipo de questão numa sessão terapêutica, sinto meu coração bater num ritmo diferente, e meu interesse, que costuma ser grande na escuta, se torna gigantesco. Assim sendo, pude observar dois aspectos que a perturbavam. Um deles é que o que se apresentava para ela era: “Vai lá, explore seus sentidos, e, então, expresse-se por meio deles!” E o outro era: “Permita-se ser menos crítica consigo mesma, pois do contrário não conseguirá criar nada interessante!” Fomos, então, explorando o primeiro aspecto, e ela se deu conta de que precisaria desenvolver para si mesma a habilidade de sentir e de se expressar fora das “delimitações” já conhecidas; de ser capaz de explorar e usar seu mundo interno como uma “ferramenta de trabalho”, e não apenas para “agir” no mundo. Isso significa aprender a estar no mundo também com o universo dos sentidos. O segundo aspecto, tão importante quanto o primeiro, era aprender a fazer tudo aquilo apesar das ferozes críticas internas – e, cá para nós, trata-se de uma tarefa desafiadora, pois constantemente as temos ouvido como verdades absolutas e incontestáveis. Essas críticas costumam dizer que rirão de nós, ou que não faremos nada digno de nota. Porém, quando as examinamos de perto, há pouca ou nenhuma sustentação baseada em evidências.

Com frequência, tendemos a tomar os pensamentos como fatos, ou seja, se eu penso constantemente que sou um fracasso, tomarei facilmente isso como tal, e aí poderei trabalhar fortemente para provar o contrário por meio de exigências absurdas, ou me sabotar para confirmar que, de fato, sou um fracasso. Ambos demandam esforço e geram cansaço desnecessários.

Fato é que a voz interna crítica existirá sempre; entretanto, podemos aprender a confrontá-la e tomá-la apenas como mais um aspecto do nosso funcionamento mental. Mas também podemos aprender a ouvir nossa voz interior mais profunda e sábia. Ao fazer isso, seremos capazes de ser mais amorosos e cuidados em nossas novas explorações.

 

Adna Rabelo – Psicóloga

CRP: 05/48233

Revisão: Elaine Canisela (Contato: 19. 992881453) 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *